Canibalismo na velha mídia

Segundo o Aurélio:

Canibalismo

[De canibal + -ismo.]

Substantivo masculino.

1. Antropofagia.

2. P. ext. Ato de um animal devorar outro da mesma espécie ou da mesma família.

3. Fig. Ferocidade de canibal.

A velha mídia não é mais a mesma. Mesmo tentando demonstrar unidade nesses encontros de direita que eles organizam de vez em quando para mostra força, fica cada vez mais claro que o projeto de opinião única e de assassinato do contraditório que eles queriam implantar através do auto-referenciamento, com ataques coordenados contra alvos comuns e ignorando os críticos, começa a fazer água. A suposta supremacia da associação suspeita dos principais órgãos de imprensa do Rio de Janeiro e São Paulo começa a ser colocada em xeque, e se antes a imprensa de todo país reverenciava o poder dos barões da mídia carioca e paulista reverberando suas opiniões em cada gazeta desse país, hoje já começa a enfrentá-la e defender seus próprios argumentos.

O editorial do Estado de Minas intitulado “Minas a reboque, Não!” foi como um grito de independência, e mesmo que seja uma manifestação de apoio político claro para Aécio Neves, o que em minha opinião retira credibilidade do jornal que deveria ser imparcial, soou aos meus ouvidos como uma reação importante, principalmente vinda de um grande estado como Minas Gerais, no sentido que não era possível mais aceitar a manipulação da velha imprensa para satisfazer seus próprios interesses de salvar a candidatura Serra, passando por cima de Aécio e de Minas. Leia aqui a reprodução do editorial, convenientemente o link é de um blogueiro Serrista  que protesta contra a independência do Jornal, acusando o mesmo de não publicar nada que contrarie Aécio (exatamente como ele faz com Serra em seu blog).

O editorial não ataca Serra diretamente como fez a velha mídia, que por diversas vezes atirou contra o playboy mineiro quando este ainda se aventurava a querer enfrentar, através de prévias partidárias, o queridinho governador de São Paulo, como é possível ver aqui e aqui. O editorial do Estado de Minas tem como alvo seus “colegas” do eixo Rio – São Paulo em um claro posicionamento de confronto.

Como vimos pela reação do blogueiro, soou mal entre os Serristas a posição de confrontamento do jornal mineiro, depois disso houve manifestações de tucanos mineiros e políticos do Democratas que subiram o tom, evidenciando as críticas da inviabilidade eleitoral da candidatura Serra e a nocividade para o partido de seguir com ela, além disso, em comemoração em Minas Gerais do centenário de Tancredo Neves, em clima de campanha antecipada, convidados do governador de Minas gritaram Aécio Presidente na presença de um atônito Serra que parecia querer enfiar a cabeça no chão de tão constrangido.

Não dá para prever se essa guerra autofágica vai se prolongar apenas até a definição oficial da candidatura tucana ou se a imprensa mineira, e a de outros estados inspirados nesta, tomarão gosto pela opinião própria e passarão a se manifestar de forma independente, sem o adesismo automático de apenas reproduzir o que sai na imprensa do Rio e São Paulo, “importando” junto à opinião pré-concebida destes.

De um jeito ou de outro, sendo provisório ou não eu vejo aspectos positivos nessa situação porque desarma essa neutralidade e silêncio contra os descalabros cometidos recentemente por essa imprensa ligada ao PSDB de São Paulo, eles estavam achando que tudo podiam, mas agora nós começamos a perceber que nem entre eles se entendem mais, já existe um ruído de contraditório que ameaça o avanço da opinião única. Simbólico é a melhor definição para esse motim do jornal mineiro.

A imprensa nacional vem adotando comportamentos políticos que beiram a esquizofrênia e a reação frente a divulgação pela Band da última pesquisa Vox Populi para presidente da república é um exemplo muito claro disso. A queda de diferença entre Serra e Dilma na ordem de 15% em apenas um mês revelada pela mais recente pesquisa Vox Populi provocou reações que vão desde ignorar e pesquisa até interpretá-la de maneira bisonha, tentando de forma clara reduzir os danos do impacto que a informação pode trazer a sua estratégia junto à opinião pública de definir a vitória de Serra por antecedência.

A internet tem suas peculiaridades, tudo o que você escreve fica registrado e pode ser acessado, o que expõe de forma límpida quando determinados jornalistas, blogueiros ou meios de comunicação abordam assuntos assemelhados usando de dois pesos e duas medidas. Abaixo, estão alguns links que foram recuperados no site do Estadão, usando o próprio macanismo de busca do site, relacionados a pesquisas “Vox Populi” e podemos observar como o jornal tratou duas pesquisas sucessivas do mesmo instituto:

Vox Populi 14/12/09:   Dilma oscila 1 ponto para baixo e Serra sobe 3 pontos (variações dentro da faixa de erro)

19/12/2009  Ex-candidato, Aécio supera ministra e mostra viés de alta
19/12/2009  Dilma vai à TV, mas não sobe, indica Vox Populi
20/12/2009  Ministra tem dificuldade com eleitores pró-governo
Vox Populi 17/01/10: Dilma cresce 9 pontos e Serra cai 5 pontos (diferenças caem de forma consistente)
30/01/10 Serra é favorito na corrida presidencial, segundo Vox Populi
Fica claro com os links acima a diferença absurda com maior abordagem e repercussão da pesquisa de menor relevância, com o exemplo clássico no último link do nível de malabarismo intelectual para conseguir dar um título favorável para um candidato cuja pesquisa traz notícias péssimas. É inacreditável como o Estadão demonstra não ter o mínimo respeito pelos seus leitores, pois quem lê a pequena nota desse último link vai perceber que ela desmente totalmente o título.
O exemplo é o Estadão porque é o que ficou mais nítido, mas em toda a imprensa corporativa o comportamento também foi incompreensível: a Folha ignorou solenemente, assim como os analistas políticos escalados para falar mal do governo lula e do pt, o Noblat sumiu por todo o fim de semana e no primeiro comentário da semana citou brevemente a pesquisa como se só tivesse ouvido falar da tal. Há um constrangimento no ar e a obrigação de deixar morrer o assunto, vai que o Datafolha ou o Ibope dão números menos traumáticos e eles podem voltar a comentar.

Muito “curiosa” também foi a abordagem do Fernando Rodrigues que preferiu realçar no título justamente o que ele considera a pior notícia para Dilma, mesmo desmentido pelos números que ele mesmo divulga:

21h16 – 29/01/2010  Dilma sobe menos se Ciro sai da disputa, diz Vox Populi

O comportamento além de esquizofrênico me parece de argumento pueril, algo como se eles pensassem assim: “eles são burros demais para perceber a manipulação grosseira” ou ” a maioria só lê títulos e vai que a gente convence eles”, porque se você imaginar que se os leitores deles possuem algum tipo de discernimento e que não estejam interessados em ser enganados desde que as notícias sejam “boas”, esse comportamento só depõe contra eles mesmos. Eu não sei se eles esqueceram disso mas imprensa precisa de credibilidade e quando o leitor/telespectador/ouvinte percebe que está sendo feito de palhaço ele não volta mais.

Atualizando às 12:27 hs:

Os esquizofrênicos vão entrar em pânico porque pesquisa do Instituto Sensus fresquinha acaba de confirmar os números do Vox Populi (ainda melhores para Dilma). Vai ficar difícil ignorar duas pesquisas sucessivas e com resultados que se confirmam. Chamem o veículo anfíbio do Corpo de Bombeiros de São Paulo para salvar a naufragante candidatura Serra.

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